A #6 fendamel é um trabalho a mãos de Maria Geraldes, Catarina Pereira, Carla Ribeiro, Catarina Martins e Anabela Ferreira aka Madrita.

Continuamos sem saber bem quem somos, nem para onde iremos. Não sabemos bem o que é a fendamel, mas sabemos que ela nos faz sentir vivos!
Desfruta de nós tanto quanto desfrutamos de ti.


A #5 fendamel é tecida por Carla Ribeiro, Catarina Pereira, Maria Geraldes, John Strange, Inês Guerreiro, Michel Assis e João Cinda.
EscritaFotografia

A última fendamel de Outubro conta com a Escrita de Carla Ribeiro, Catarina Pereira, Bruno Broa, John Strange e Luiz de Oliveira. A Fotografia entra com Maria Geraldes, Paula Santos, Michel Assis e Catarina Coelho.
Para entrares na sala de revelação fotográfica da fendamel, clica no estica. Queres sentir palavras a trespassarem-te os pensamentos? Clica no bucha.

Trecho do capítulo I de “O namorado do papai ronca” – Plínio Camillo
TERÇA-FEIRA - 3 DE AGOSTO
Noite
— O namorado do papai ronca!
— Não está meio exagerando, filho?
— Mãe! O Ademar ronca muito! É sinistro, mãe!
— Dante!?
— Mãe… calma aí… todo mundo aqui do prédio reclama…
— E aí?
— Aí nada! Papai encheu as paredes de cortiça…
— Funcionou?
— Que nada… o ronco vaza…
— Sei…
— Sabe nada… parece a caverna do dragão!
— Num tá meio demais?
Dante acha engraçado conversar com a mãe pelo Skype.
Faz um mês que ela está em Milão! Foi fazer um mestrado em moda, ou dar uma con­sultoria, ele nunca sabe bem.
Dante teve que trocar São Paulo, capital, por Procópio, interior.
Em uma noite dessas bateu uma saudade da mãe e de São Paulo. Até chorou baixinho, com a cabeça coberta. Não queria que o pai ficasse chateado.
Sempre quis morar com Heitor. O querido e velho pai! Sonho de filho quando a mãe dá bronca. Mas São Paulo era muito melhor!
Sabia que era por pouco tempo, seis meses! Mas…
No aeroporto, mês passado, ele se fez de forte, porém morria de medo.
Medo da cidade.
Medo do avião da mãe cair.
Medo da mãe nunca mais voltar.
Medo da vida com o pai.
Medo da vida longe da mãe.
Medo do homem alto que tinha um olhar estranho.
Medo.
Lembra-se do dia da grande mudança. Com a mãe embarcada, foram de táxi até a ro­doviária. Heitor, como sempre fazia antes de entrar no ônibus, comprou revistas para os dois.
Embarcaram às 11, hora do jogo do Brasil contra a Holanda.
Ouviram o jogo pelo rádio do celular. Dividiram o fone.
Pularam com o gol do Robinho.
Ficaram tristes com o gol do holandês.
Dante quis trucidar o Felipe Melo.
Decidiu nunca mais torcer pelo Brasil depois do segundo gol.
Heitor ficou ouvindo música e Dante leu as revistas.
PERFIL EM UMA REDE SOCIAL
Bárbara Almeida Neves
Data de nascimento: 22.2.
Cidade Atual: Milão - Itália
Cidade Natal: São Paulo
Gênero: Feminino
Idiomas: Português, Inglês e Italiano (tem arranhado o espanhol)
Sobre mim: Sou orgulhosamente a mãe de Dante Almeida Neves. Quero conhecer o mundo. Sou alguém que tem que matar um dragão por dia com um canivete enferru­jado, porém faço isto sorrindo, alegre e de bem com a vida.
O que emociona: Um bom jantar regado a vinho branco.
O que gostaria de dizer: Eu vou!
O que mais? Eu trabalho passeando. Passeio trabalhando.
Ou: Aprendi a gostar de futebol com o meu filho. Até já fui ao Pacaembu. Uma vez, na saída do jogo, esqueci onde coloquei o meu carro e fiquei mais de duas horas pro­curando.
Atividades e interesses: Moda e Cinema
Uma frase: O fracasso é um tempero indispensável ao êxito.” (Truman Capote).
Porque está aqui e não está lá: Quero conhecer o mundo, pelo menos o meu mundo!!
Informações de contato: http://consultoriabarbara.wordpress.com
Dante assiste sozinho o DVD de O iluminado. Viveu a tensão toda. Subiu no sofá. Afirma que vai ler um livro do Stephen King.

Sobre o autor:
Em junho de 2012, Plínio Camillo lançou o seu romance infanto-juvenil: “O namorado do papai ronca”.


 
Este foi um dos selecionados pelo ProAC - Edital nº 32/2011 - Concurso de apoio a projeto de primeira publicação de livro do Estado de São Paulo - Brasil
 
Um trecho do release: “Livro infanto-juvenil se propõe a promover o debate sobre a questão homoerótica tendo como narrador um garoto de 12 anos louco por futebol. Acaba de ser lançado o livro O namorado do papai ronca, obra de estréia do autor Plinio Camillo” que promete gerar bastante discussão sobre a questão homoerótica. É um recorte de seis meses na vida do garoto Dante, de 12 anos, inteligente, articulado e louco por futebol, que precisa ir morar com pai numa cidade do interior quando sua mãe vai passar uns tempos na Itália para um curso. Imagine a dificuldade que é para um adolescente sair de São Paulo e precisar - em curto espaço de tempo - adaptar-se à nova cidade, nova casa, nova escola, e ainda conseguir fazer novos amigos. Pois esse turbilhão é narrado neste livro em ritmo de thriler e numa linguagem absolutamente jovem, e que inova no estilo ficcional ao trazer diálogos e personagens em linguagem típica da Web, como as conversas instantâneas por Skype ou Messenger. E mais, também inova ao apresentar os personagens via perfis de redes sociais, uma forma de contextualizar os diálogos e apresentar os personagens da história.”
 
(o livro está sendo vendido no site da Livraria Cultura  para todo o Brasil - http://www.livrariacultura.com.br/scripts/busca/busca.asp?palavra=ronca&tipo_pesq=0&tipo_pesq_new_value=false&tkn=0 e também na forma de ebook: www.iba.com.br/detalhes/livro/489496/o-namorado-do-papai-ronca)

Blog: “O namorado do papai ronca” - http://pliniocamillo.wordpress.com/


(Source: fendamel.blogspot.pt)

Jardins onde o pôr-do-sol é quente 
O meu pensamento a sonhar com Liverpool e em como soam os becos 
Desta cidade onde nunca estive presente 
Leitura iluminada pelo candeeiro de abajur feito com ramos secos 
Imaginar palavras brincando entre si 
Correndo pelo meio de místicos nocturnos roseirais 
Onde as rosas brancas contam ao ouvido segredos em frenesi 
Acariciando o sexo ainda mais, mais, mais… 

Raciocínio desconexo perde a meada o tempo 
Directivas apontam para aquilo que não sabem 
Ponteiros recuam meia hora evita-se um contratempo 
Já todos embriagados na busca cega pelo controle da engrenagem 

Mas a relva ainda fresca destes fins de tarde em Janeiro 
Entranha-se dentro de mim misturando-se com o nobre licor 
Dado a beber-me por uma Deusa nua brilhante que me atingiu em cheio 
No doce travo e encanto do seu beijo apaziguando minha dor 
E eleva-se ao céu o poderoso inferno 
Tudo o aquilo que não for possível ser, será de forma insana 
Rebentarão os instrumentos de tanto tocar pautas sem término 
Orgias serão consumadas até que se erga a ultima voz que diga, hasta mañana!

Tu Baudelaire, sabias o quanto era amarga esta vida 
Embebida em absinto que tanto devoravas 
Enquanto a tua imaginação sonhava versos e a tua mão escrevia 
Os pobres homens carregavam o triste fado nas mãos acorrentadas 

Realidade que sofre em intervalos 
Uma mulher de vestido curto cortejada pelo brilho de um candeeiro 
Numa noite de inverno guiada por candelabros alados 
E o fumo desfeito em cinza espalhada com desprezo no cinzeiro 
Bêbedo de vinho tropeço várias vezes subindo os degraus 
Que parecem nunca alcançar o infinito 
Que variam subindo e descendo decibéis e graus 
Moribunda existência da vida quando ficas por um fio?
Sobre o autor:
José Figueiredo tem o seu segundo livro “Néon Urbano”, (Corpos Editora) já disponível

(Source: fendamel.blogspot.pt)

Dança do Ventre

Que portas se fecharão entre os teus braços
Cor de fogo e de morte
Quando o teu corpo imolado em sacrifício
Redimir o teu povo?

Silente, a canção que passa
É una nas potestades primordiais
E cada hino é um espelho na renúncia
Ao cárcere que és tu.

Estrela,
Príncipe de sangue exilado na coroação dos tempos,
Eternidade espectral
No altar do infinito absurdo
Que te eleva em olhos imutáveis.

E em ti,
Canção de auroras mortais sobre a dormência,
Quem poderá embalar na clausura
Das paredes que ergueste em teu redor?

(Source: fendamel.blogspot.pt)

Era cor de leite. A paisagem. O chão. E o céu… O céu era negro. Como os dias de Serpa.
E era um daqueles dias, perdão, noites, em que, mais uma vez, o jantar ficava a meio. Só não tinha que pedir desculpas a ninguém pela interrupção; Serpa costumava comer sozinho e hoje não foi excepção. “Porque haveria de ser”, pensava o inspector, limpando-se no guardanapo enquanto olhava para o telemóvel.
Era praticamente uma cabana. Um casebre rodeado de solitárias árvores, secas e caducas. A única porta estava aberta, mas o local não era muito convidativo. Com passos pesados, aproximava-se. Estacou. O cheiro a mofo invadia o ar circundante, debaixo da lua. Misturava-se com outro cheiro, que ele conhecia demasiado bem. A certa altura, este dominava o outro e enjoava.
Já não se preocupava em tapar o nariz, este era o seu dia-a-dia. Mas havia quem não sentisse o mesmo:
 - Recebemos uma chamada anónima. Alguém passou aqui e levou com o cheiro em cima.
 - Já descobriram quem é o morto? – questionou Serpa ao agente que lhe abria a porta, que entoou um chio.
 - Jorge Clemente. 43 anos. Casado. Um filho.
 - Esse nome diz-me alguma coisa… Não é aquele gajo do caso do banco?
 - Esse mesmo. O gajo andava desaparecido, mas ninguém dos jornais sabia. Este e o deputado. Daqui a bocado temos um circo à volta destes gajos da alta sociedade. Por aqui, Serpa.
 O agente conduziu-o até ao corpo. O homem estava deitado no chão de barriga para baixo. Um único buraco denunciava um único tiro na cabeça. Acocorado ao lado do corpo estava Solnado, coberto da cabeça aos pés por um fato isolador.
 - Serpa, chegaste! – Levantando-se num suspiro – Não consegues estar longe de mim!
 - Eu bem tento, mas somos colegas – Suspirou o outro, de verdade.
 - Aqui o nosso amigo tem a cabeça pousada como se estivesse a dormir no chão e o tiro atravessa o crânio a 90 graus do chão nesta exacta posição…
 - O que quer dizer que foi baleado assim. Uma execução sumária.
 - Sim e não. Foi uma execução sumária, ele foi baleado nesta posição, mas não me estás a ouvir, como sempre.
Solnado posicionou-se sobre o corpo.
 - O ângulo perfeito daqui é pouco natural. É quase como se tivesse a arma apontada a cabeça a partir de algo estático. Mas daqui só se fosse no tecto.
Serpa viu de facto esta impossibilidade. De forma quase tão espontânea virou o olhar para o tecto.
Dali via uma caixa preta. E a caixa podia ser a resposta.
 - Pessoal, cheguem aqui uma escada.
 - Serpa, o corpo está aqui, não podemos pousar a escada. Espera até acabarmos aqui.
Ainda de olho na caixa, Serpa saiu da casa. Engoliu um e outro cigarro até que lhe dissessem que podia subir a escada.
Arrastou-se pelos degraus enquanto os seus joelhos se queixavam. A caixa tinha uma pequena portinhola que se encontrava trancada. Pediu um pé de cabra e abriu-a à força.
Viu o que esperava ver. Uma arma presa por estranhas engenhocas apontava o seu cano para o chão, no ângulo exacto do tiro.
O porquê é que ainda não tinha surgido. Mas a mente de Serpa para lá se dirigia. Em breve, um veredicto. 

(Source: fendamel.blogspot.pt)

São só espelhos,
Só espectros no reverso de uma espera
Pintada em tons de horas quotidianas
E dormente em véus de luz.

Noites de uma aurora ausente,
De um corpo indiferente no leito do olhar cansado,
Berço de terras perdidas.

São só mais dois segredos,
Três rostos numa máscara de censura
E um só dia para cair.

(Source: fendamel.blogspot.pt)